Um Daqueles Dias
Há dias em que tudo o que entregamos parece não ter valido a pena.
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...” A música diz aquilo que, às vezes, a gente não consegue dizer. Há dias em que alguma coisa dentro da gente parece parar. O que ontem fazia sentido hoje parece insuficiente. Olhamos para a própria história e, por algumas horas, tudo parece ter dado errado.
São dias perigosos, porque a dor tem uma habilidade particular: ela escolhe um momento difícil e tenta transformá-lo em biografia.
De repente, uma mãe olha para os filhos e se pergunta se foi uma boa mãe. Uma filha se pergunta se fez o bastante pelos pais. Uma profissional olha para a própria trajetória e enxerga apenas aquilo que não conseguiu realizar. Uma mulher olha para si mesma e sente que fracassou justamente onde mais desejava acertar. E talvez o mais doloroso seja perceber que, apesar de todo amor, cuidado e dedicação, algumas coisas simplesmente não acontecem como imaginávamos.
Há uma espécie de luto nisso. O luto por aquilo que sonhamos viver e não vivemos. Pela proximidade que imaginávamos e não veio. Pelo reconhecimento que esperávamos e não chegou. Pela resposta que acreditávamos que o amor, algum dia, naturalmente produziria.
Mas existe uma diferença entre não ter recebido o que esperávamos e não ter valido a pena aquilo que oferecemos.
Nem tudo o que fazemos na vida será devolvido na mesma medida, da mesma forma ou no tempo que gostaríamos. Isso não transforma o amor oferecido em desperdício. Talvez apenas nos obrigue, em algum momento, a separar duas coisas que confundimos durante muito tempo: aquilo que podemos fazer pelo outro e aquilo que pertence ao outro.
Há dias em que a roda da vida parece passar por cima de tudo o que planejamos. Nesses dias, talvez não seja preciso encontrar respostas, tomar decisões ou fazer julgamentos definitivos sobre a própria história. Talvez seja suficiente não acreditar completamente naquilo que a dor está dizendo.
Porque há sentimentos que são verdadeiros sem serem verdades inteiras.
E amanhã, quando a dor tiver diminuído um pouco, talvez seja possível olhar novamente para a própria vida e perceber que ela não cabe naquele dia.
Nem todo investimento de amor precisa produzir o resultado que imaginamos para ter sido amor. E talvez crescer também seja aprender que algumas das coisas mais importantes que fazemos na vida não nos pertencem depois que as entregamos.
Hoje, talvez seja apenas um daqueles dias.
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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