Pelo direito aos sentimentos
Em um mundo onde as tristezas são proibidas, uma reflexão sobre a utilidade e necessidade de todos os sentimentos.

Tenho me sentido bastante preocupada com os medos e dificuldades que as pessoas apresentam com relação aos próprios sentimentos. Parece-me que se instituiu uma lei imaginária que dita à obrigatoriedade de que todos sejam felizes e tranqüilos nas vinte e quatro horas do dia, e durante os 365 dias do ano. Então, quando este poder foge ao controle, as pessoas passam a procurar desesperadamente por mágicas. Será que isto é possível? Ou seria apenas o reflexo de um mundo cheio de pressa, onde todos estão sempre correndo e procurando por soluções milagrosas? Tudo tem que ser resolvido rapidamente, então frente a um conflito, um problema real e sério que o deixa triste (como de fato deve ser) é preciso procurar imediatamente por um antídoto, pelas famosas “pílulas da alegria”.
Você não acha que isso é muito perigoso? Sim! Corre-se o risco de ficarmos alegres frente às piores situações! Como diria meu grande mestre Di Loreto: “Corre-se o risco de comemorarmos a perda dos dedos da mão, a perda de um amigo”. O que seria um desequilíbrio. Na verdade, penso que deveríamos ser muito gratos a mãe natureza por ter nos dado a tristeza. É ela que nos poupa de comemorarmos, ou até de ficarmos indiferentes aos momentos difíceis. É ela que nos alerta para o fato de que é necessário pararmos para pensar um pouco (ou muito), caso contrário nos tornaríamos absurdos e inadequados.
Para que temer essa tristeza? Ou você tem sentimentos ou não os tem. E se é capaz de sentir a bendita tristeza, será capaz de sentir também a bendita alegria!!!!!! A alegria de poder resolver problemas, de ter uma família que sempre está ao seu lado, de recuperar um amigo, de possuir virtudes, etc.
A tristeza exerce na mente, a mesma função protetora que a dor exerce no corpo. Poderíamos pensar de forma parecida nos medos, na raiva, na inveja, e todos os outros sentimentos que fazem parte do “pacotão” que recebemos ao nascer. É lógico que do mesmo jeito que cuidamos de nossas dores físicas, temos que cuidar de nossas dores emocionais. Devemos tentar entendê-las, pensar em seus motivos, não ignorá-las ou simplesmente eliminá-las com um comprimido mágico. Afinal de contas, tenho certeza que você não cortaria e jogaria fora a parte de seu corpo que dói, mas cuidaria dela com carinho. Faça o mesmo com sua alma!!!!!
Às vezes, fisicamente falando, o machucado é feio e precisamos de uma muleta. Emocionalmente falando, às vezes os medicamentos são necessários como uma muleta psíquica, quando a dor está muito forte, mas você pode se cuidar, e com o tempo dispensar as muletas. É aí que entram as psicoterapias. Elas são fundamentais quando precisamos trazer algum elemento novo, algo que permita outra organização, em outro nível de pensamento. É quando buscamos pintar com novas cores, um velho elemento mental. Quem sabe até transformar essas tristezas em alegrias?
Sugiro um livro infantil, para a criança que mora dentro de você: “O Decreto da Alegria”, de Rubem Alves (sou muito fã dele), do qual vou transcrever um trecho:
“Naquele momento, cessados os fogos de artifício que iluminavam o céu, brilhou no horizonte uma estrela azul. Era um brilho bonito e triste. Foi então que perceberam a tolice do rei ao tornar obrigatória a alegria e ao tornar proibidas as tristezas. Porque a vida é feita de uma mistura de alegrias e tristezas. Sem as tristezas, as alegrias são mascaras vazias, e sem as alegrias, as tristezas são abismos escuros. É por isso que os olhos, lugar dos sorrisos, são regados por uma fonte de lágrimas. São as lágrimas que fazem florescer a alegria. “Aqueles que com lágrimas semeiam, com alegria ceifarão”: assim disse o poeta sagrado.”
E ainda um trecho de Caeiro:
“... Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...”
BIA MELARA/Companhia no Divã
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Roberta Moraes Moraes
Roberta Moraes Moraes
Bia Melara
Beta Muito obrigada por participar e comentar...
Sua opinião é muito importante para mim... Você sabe disso.
????
Dulce Ferreira
Bia Melara
Dulce querida
é isso mesmo!!!!!
Fico tão feliz que se interesse por meus artigos, e mais feliz ainda quando tenho a surpresa de um comentário seu.
Obrigada.. . de coração