Porto de Chegada

No aniversário da cidade, a memória de quem também renasceu ali.

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Porto de Chegada

Ela chegou pela primeira vez ainda pequena, arrastada pelas mãos dos pais e pelas lembranças antigas da família. Não entendia muito bem o que significava “voltar”, porque nunca tinha estado ali de verdade. Mas as ruas, curiosamente, pareciam já conhecê-la.

Na infância aprendeu o significado do nome da cidade como quem decifra um enigma bonito. Percebeu que seu nome e o da cidade se misturavam. Era o Porto do seu Ferreira...e ela leva Ferreira em seu sobrenome. Subia nas árvores do quintal da avó, corria descalça pelas ruas que cheiravam a terra molhada e pão fresco. Era uma forasteira em casa própria – e isso a confundia menos do que parecia.

Mais tarde partiu. Fez malas, fez planos. Foi conhecer o mundo, estudar, tentar ser o que ainda não sabia nomear. E por um tempo até pensou que pertencia a outros mapas. Mas o tempo tem um jeito manso de empurrar a gente de volta pra onde o coração bate mais calmo.

Voltou já adulta, com cicatrizes discretas e vontades silenciosas de retribuir a esta cidade o que ela já a tinha oferecido. A cidade não perguntou por onde ela andou, nem por que demorou tanto. Apenas abriu os braços. Como se dissesse: “senta, descansa, eu lembro de você”.

Foi ali, naquele abraço de Porto Ferreira, e na acolhida dos amigos que por aqui havia deixado, que ela se reconstruiu. Tijolo por tijolo, gesto por gesto. A cidade não a fez esquecer de onde viera, mas ensinou a ela que a raiz mais bonita é aquela que a gente escolhe fincar.

Hoje, quando perguntam de onde é, ela sorri. Diz “Porto Ferreira” com a mesma ternura que fala de um velho amigo – desses que nos viram crescer, cair, voltar e florescer...e acreditam em nossos frutos.

E assim como ela, a cidade também segue crescendo. Porto Ferreira faz aniversário esta semana, e a cada novo ano, entre ruas com nome de datas e vozes que ecoam memória, ela envelhece bonita. E a personagem, que já não se sente forasteira, envelhece junto com ela – aprendendo, a cada ciclo, a ser um pouco mais casa, um pouco mais daqui.

Porque a cidade não apenas a acolheu. A cidade a recriou. E ela é grata. Muito!!!

 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

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