Os Deslocamentos Do Amor Materno
Sobre como o tempo desloca a maternidade e reinventa vínculos
Ser mãe nunca foi um lugar fixo. Nunca coube em uma definição única, nem em uma imagem estática dessas que a gente guarda em porta-retratos. Ser mãe sempre foi movimento.
Já fui colo constante, presença que antecipa, braço que protege antes mesmo da queda. Já fui aquela que ensina, que orienta, que segura firme a mão pequena para atravessar a rua da vida.
Mas o tempo... ah, o tempo não tira a maternidade da gente – ele a desloca. Hoje, descubro um outro lugar.
Sou mãe de longe. E aprendo todos os dias que a distância não estica o amor – porque amor de mãe não se mede em metros. O que a distância faz é dar nome a saudade.... E só. Porque o amor...esse continua inteiro. Talvez até mais largo. Mais silencioso, mais profundo, mais entregue.
Existe uma coragem escondida em toda mãe que cria um filho para o mundo. A gente ensina a voar... e depois precisa sustentar, dentro do peito, o vazio do céu.... Mas sustenta!!! Porque amar um filho é, também, suportar não ser mais o centro da vida dele – e ainda assim permanecer sendo casa.
E é curioso... nesse mesmo tempo que vejo minha filha se tornar mais minha amiga – me contando da vida, me incluindo nos pensamentos, me escolhendo de um jeito novo – também me vejo filha de outra forma.
Minha mãe... que por tanto tempo esteve num lugar difícil de alcançar, agora se aproxima. Ou talvez seja eu que finalmente tenha aprendido o caminho. Hoje cuidamos uma da outra. Sem disputas silenciosas, sem tentativas frustradas. Só presença. Viramos, de algum modo, amigas. E então eu me dou conta: a maternidade não é só um vínculo que desce – ele também sobe, se transforma, circula.
Sou filha que cuida. Sou mãe que solta. Sou ao memo tempo, abrigo e ausência. E em todos esses lugares, existe amor. Um amor que não deixa de ser de mãe..., mas que, vez ou outra, se permite também ser amiga. Não aquela amizade que substitui – mas a que acompanha, respeita, escuta. A que não precisa mais conduzir o tempo todo...porque aprendeu a caminhar ao lado.
Neste dia das mães eu não celebro apenas o que fui. Celebro, principalmente o que estou me tornando: uma mãe que ama de perto e de longe. Uma filha que finalmente pode cuidar. Uma mulher que aprende que o amor, quando é verdadeiro, não aprisiona – ele amadurece.
E, às vezes, com uma delicadeza imensa...ele vira amizade.
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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