Olhar Não é Enxergar
Nem todo olhar é encontro.
“Até onde posso, vou deixando o melhor de mim. Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.” (Clarice Lispector)
A frase circula pelas redes como um sopro de dignidade. E talvez toque tanto porque fala de uma experiência comum e silenciosa: a de oferecer o melhor de si e, ainda assim, não ser reconhecido.
Há uma diferença sútil – e profunda – entre ser visto e ser sentido. Ser visto é constatar uma presença. Ser sentido é reconhecer uma existência.
Nem todos sabem sentir.
Em muitos encontros humanos, entregamos cuidado, atenção, disponibilidade, esforço genuíno. Fazemos o possível dentro de nossas limitações. E, mesmo assim, algo não acontece do outro lado. Não há eco. Não há retorno afetivo. Não há reconhecimento.
Isso costuma doer mais do que gostaríamos de admitir.
Não se trata de vaidade. Trata-se de vínculo. Desde o início da vida, precisamos ser sentidos para nos constituirmos. Quando alguém percebe a nossa dor, nossa alegria ou nossa tentativa, algo se organiza dentro de nós; “eu existo para alguém”.
Quando isso falha, a experiencia é de invisibilidade.
O risco é transformar essa dor em endurecimento. Passar a oferecer menos. Recolher-se. Negociar a própria essência para caber na percepção limitada do outro.
Mas há uma maturidade possível nesse lugar: continuar oferecendo o melhor não como estratégia para ser validado, mas como compromisso consigo mesmo.
Nem todos terão disponibilidade emocional para perceber o que entregamos. Alguns estão excessivamente ocupados com suas próprias faltas. Outros nunca aprenderam a reconhecer o afeto que recebem. E há aqueles para quem sentir implica responsabilidade – e responsabilidade assusta.
A incapacidade do outro de sentir não invalida o que foi oferecido.
Talvez o ponto não seja ser reconhecido por todos, mas sustentar quem se é, mesmo quando não há aplausos, mesmo quando não há eco.
Oferecer o melhor de si não garante reciprocidade. Mas garante integridade. E, no fim é o que permanece.
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
Que sensações teve com o artigo?
Selecione as emoções que experimentou com este artigo
Reações dos demais leitores:
1
1 Conte-nos mais! Comente no final desta página.
Olá, deixe seu comentário para Olhar Não é Enxergar