O Que Não Morre

Por que um dia para nos lembrarmos de quem nunca esquecemos?

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O Que Não Morre

Todos os anos, no dia 2 de novembro, flores são levadas aos cemitérios, velas são acesas e nomes são pronunciados em silêncio. O Dia de Finados atravessa gerações, preservando um ritual que revela algo profundamente humano: a necessidade de manter algum encontro com aqueles que já partiram. Mas por que reservar um dia para lembrar de quem nunca é esquecido?

Talvez os rituais existam justamente porque há experiências para as quais as palavras não bastam. Diante da morte, o ser humano procura gestos que possam dar alguma forma ao indizível. Para alguns, esse encontro acontece diante de um túmulo; para outros, em uma fotografia, em uma música ou em uma lembrança inesperada. Afinal, onde permanece alguém que já não está?

A psicanálise nos ensina que perder alguém não significa apenas enfrentar sua ausência no mundo externo. É também aprender a conviver com tudo aquilo que essa pessoa deixou em nosso mundo interno. O luto não se resume a uma despedida. É um trabalho silencioso de transformação de um vínculo que já não pode existir como antes.

Há pessoas que continuam presentes numa expressão que repetimos sem perceber, numa escolha que fazemos, num valor que carregamos. Às vezes, é diante de uma situação inesperada que nos surpreendemos pensando no que alguém diria, como reagiria ou que conselho nos daria. E, por um instante, a ausência parece ganhar voz.

Penso que existe algo mais profundo nessa permanência. Aqueles que amamos não vivem apenas nas lembranças que conseguimos recuperar. Vivem também naquilo que ajudaram a construir em nós. Em maneiras de sentir, de pensar, de olhar o mundo. Há marcas tão profundamente incorporadas à nossa história que já não sabemos distinguir onde termina o que recebemos do outro e onde começa aquilo que somos.

Essa é uma das dimensões mais profundas do Dia de Finados. Não apenas recordar os que morreram, mas reconhecer o quanto deles permanece vivo naqueles que ficaram. A morte encerra uma existência, mas não determina o fim de tudo o que essa existência produziu.

Porque há pessoas que deixam de estar diante dos nossos olhos, sem jamais deixar de fazer parte do nosso olhar.

 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

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