O Casamento do Rio Com a Pedra

Um ensaio sobre a dor e a beleza de seguir adiante

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O Casamento do Rio Com a Pedra

Dizem que no início, todo amor nasce como rio: nascente fresca, brilho que se espalha, promessa de vida. E foi assim também com eles. A água corria límpida, cheia de sonhos, sedenta de futuro, e a pedra parecia firme, segura, ponto de apoio para as águas que buscavam descanso. Durante um tempo, ambos acreditaram que a união seria perfeita: a água acariciando a pedra, e a pedra sustentando o curso do rio.

Mas os dias passaram. E a cada correnteza, a pedra mostrava sua dureza, se mostrava cada vez mais assustadora. O rio, que queria se expandir, encontrou bordas estreitas, desvios forçados, represamentos que o impediam de fluir. A pedra, imóvel, exigia que o rio se adaptasse à sua forma, que se curvasse, que perdesse sua própria voz de água.

Assim, pouco a pouco, o rio foi ficando exausto. Já não brilhava tanto, já não dançava ao vento. Era como se tivesse esquecido que nascera para correr, para buscar o mar. Sentia-se aprisionado na aridez do que antes parecia solidez.

Separar-se não foi simples. Rio e pedra já tinham se confundido tanto que doía imaginar o afastamento. Havia lembranças das águas tranquilas, dos instantes de amor verdadeiro. Mas a verdade é que o rio estava secando.

E um dia, com coragem e lágrimas, ele seguiu. Não houve a proteção que a pedra sempre lhe prometera. Percebeu, enfim, que nada foi construído. Cada espaço que ocupavam era separado, cada parede, cada canto, continuava sendo de um e de outro, nada realmente compartilhado...nem sonhos!!! Ele partiu apenas com o que tinha entrado – ou talvez com menos do que entrou – despedaçado, machucado, esvaziado. Seguiu em pedaços e nua, apenas com a coragem que nascera dentro dele.

Sentiu, ao mesmo tempo, a dor do que se despedia e a leveza do que enfim se libertava. Descobriu que, mesmo ferida, ainda havia nascente dentro dele – ainda havia água viva disposta a seguir adiante.

A pedra permaneceu onde estava... rígida até o último suspiro. O rio, porém, voltou a ser rio. Voltou a cantar.

E talvez seja isso que dói e, ao mesmo tempo, cura: perceber que o amor, quando aprisiona, deixa de ser amor e se transforma em peso. Que há vínculos que mais ressecam do que irrigam, e que soltar-se não é abandonar o outro, mas reencontrar-se consigo.

No fundo, separar-se é um rito de passagem: é atravessar o luto de tudo que não foi, é recolher os pedaços que se perderam pelo caminho, é aprendera confiar de novo na própria nascente. O rio segue, porque nasceu para correr. E cada passo que dá em direção ao mar é também um reencontro com a sua essência.

Talvez seja este o destino das separações: mostrar que, mesmo quando se chora, ainda é possível seguir adiante; que, mesmo quando se perde, ainda se pode ganhar a si mesmo.

E assim o rio descobre que, por mais que doa deixar a pedra para trás, nada é mais belo do que voltar a ser correnteza.


COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

 

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