Entre o que caiu e o que ficou

Reflexões de Ano Novo sobre atravessar, crescer e permanecer

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Entre o que caiu e o que ficou

O ano velho não pediu licença para ser duro. Chegou arrancando certezas, desmontando planos, testando resistências que eu nem sabia que ainda existiam. Foi um ano que ensinou sem afago, desses que não perguntam se estamos prontos antes de empurrar.

Houve dias em que tudo pareceu grande demais. Outros, em que eu mesma me senti pequena, recolhida, tentando entender onde havia errado – como se crescer não doesse, como se amadurecer não fosse, muitas vezes, uma forma silenciosa de luto.

Mas o ano velho também deixou rastros que não se perdem. Deixou uma força que não é barulhenta. Uma espécie de coluna interna que se firma quando o chão falha. Deixou a capacidade de atravessar sem endurecer – e isso, hoje eu sei, não é pouco.

Aprendi que nem tudo o que cai é perda. Algumas quedas são limpezas. Algumas rupturas são convites para parar de insistir no que já não sustenta. E alguns silêncios, por mais dolorosos que sejam, ensinam mais do que explicações longas demais.

Quando penso no ano novo, percebo que meus desejos mudaram. Não peço grandes conquistas, nem promessas espetaculares. O que desejo é não perder o que ficou de pé em mim depois do vendaval. Desejo preservar a sensibilidade que sobreviveu, a gratidão que resistiu, a capacidade de sonhar mesmo depois de tropeçar.

Tenho sonhos, sim. Mas são sonhos que caminham devagar, atentos. Sonhos que sabem que a vida não se organiza em linhas retas e que felicidade não é ausência de dor, mas a possibilidade de seguir apesar dela.

Talvez o ano novo seja isso: não uma página em branco, mas uma continuação mais consciente. Um acordo silencioso comigo mesma de não me abandonar quando as coisas apertarem. De honrar o que construí, mesmo imperfeito. De reconhecer que sobreviver também é uma forma de vitória.

Entro no ano novo com gratidão. Pelo que foi possível. Pelo que não foi. Pelo que me fez crescer sem avisar. E pela esperança – discreta, teimosa – de que depois das catástrofes, como disse minha filha, algo bom insiste em nascer.

Que o ano novo venha. Não para apagar o que passou, mas para me lembrar de tudo o que permaneceu.

 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

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