E, Mesmo Assim, É Dia Dos Pais

Há datas que deixam de ser comemoração e passam a ser um encontro silencioso com quem continua vivendo em nós.

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E, Mesmo Assim, É Dia Dos Pais

Hoje seria aniversário do meu pai!

Escrevi “seria” e fiquei olhando para essa palavra por alguns segundos... É estranho como um verbo pode carregar tanto peso.

No domingo será o primeiro dia dos pais desde que ele partiu. Descobri, da maneira mais dolorosa, que existem datas que deixam de ser apenas datas. Elas se tornam lugares onde a saudade nos espera.

Durante muito tempo, eu imaginei que perder alguém fosse aprender a conviver com a ausência. Hoje percebo que não é exatamente isso. A morte tira a presença física, o abraço, a voz, o telefonema. Mas ela não consegue apagar aquilo que a pessoa escreveu em nós. Há um tipo de presença que não depende mais do corpo. Ela mora nas lembranças, nos gestos que repetimos sem perceber, nas frases que ainda ouvimos dentro de nós e até na pessoa que nos tornamos.

É curioso como o luto muda de forma. No começo, ele é um grito. Depois, vai ficando mais silencioso. Não porque doa menos, mas porque aprende uma nova linguagem. A saudade deixa de pedir que a pessoa volte e passa a agradecer por tudo aquilo que ela deixou. A dor continua existindo, mas já não ocupa todo o espaço. Divide lugar com a gratidão.

Neste Dia dos Pais, sinto falta de tudo aquilo que nunca mais será possível. Mas também descubro que há coisas que nunca deixarão de existir. Meu pai continua vivo nas escolhas que faço, nos valores que carrego, na forma como cuido das pessoas, na coragem que, muitas vezes, nem sei de onde vem. Talvez venha justamente dele.

A psicanálise nos ensina que aqueles que amamos nunca vivem apenas fora de nós. Eles passam a fazer parte de nossa vida psíquica. Continuam nos acompanhando, não mais pelos caminhos da realidade, mas pelos caminhos da memória, do afeto e daquilo que ajudaram a construir dentro de nós. É por isso que algumas ausências são tão estranhas: doem porque a pessoa não está, mas aquecem porque, de algum modo, ela continua.

Neste domingo, muitas mesas estarão completas. Outra terão uma cadeia vazia. Para quem vive essa segunda realidade, desejo apenas que não tente expulsar a saudade. Ela é o preço do amor. E, por mais que machuque, também é a prova de que alguns vínculos são maiores do que a própria morte. 

Meu pai já não caminha ao meu lado. Mas continua caminhando em mim. E talvez seja esse o jeito mais bonito que o amor encontrou de permanecer.

Para você que ainda pode abraçar seu pai, faça isso demoradamente. A vida, às vezes muda de tempo sem nos avisar.

 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

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