Depois do Colo
Porque deixar crescer também é uma forma de amor
Hoje, minha filha faz 18 anos.
E talvez nenhuma idade diga tanto sobre o tempo quanto essa. Porque dezoito anos não são apenas dezoito aniversários. São tantas versões de uma mesma pessoa que parece impossível acreditar que aquela menina que um dia coube inteira no meu colo seja a mulher que hoje começa a escolher, sozinha, os caminhos que quer percorrer.
O tempo transforma tudo diante de nossos olhos. Muda os corpos, as vozes, os sonhos, as vontades. Leva a infância sem pedir licença. E, quando percebemos, nossos filhos já não precisam que seguremos suas mãos para atravessar a rua. Precisam apenas saber que, se um dia quiserem voltar, estaremos lá.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados da maternidade: entender que amar um filho também é aprender a deixa-lo crescer. Primeiro, seguramos no colo. Depois, pela mão. Mais tarde, seguramos a ansiedade enquanto ele vai sozinho. Até chegar o momento em que já não podemos segurar quase nada – apenas a certeza de que entregamos tudo aquilo que podíamos e que agora é preciso confiar na bagagem que leva consigo.
E então descobrimos que o amor muda de forma. O que antes queria proteger de tudo aprende a confiar. O que precisava estar perto aprende a acompanhar de longe. E aquele amor que um dia dizia “fica perto de mim” começa, com o coração apertado e cheio de orgulho, a dizer: vá.
Você faz 18 anos, Tainá. Mas, de alguma maneira, eu também faço 18 anos de uma mãe que aprendeu a nascer muitas vezes. Nasci quando você nasceu e renasci tantas outras enquanto você crescia. Agora, diante da mulher que você está se tornando, descubro que preciso aprender mais uma vez quem sou eu nessa nova etapa da sua vida.
Porque o tempo muda quase tudo. Menos o lugar de onde começa o amor.
Você pode crescer, mudar, partir, voltar, escolher caminhos que eu jamais escolheria. Pode se tornar tantas mulheres diferentes ao longo da vida. E, em cada uma delas, eu ainda vou reconhecer um pedaço, daquela menina que um dia chegou aos meus braços e mudou para sempre a minha maneira de existir.
O colo passa. A infância passa. A dependência passa. Os anos passam...
Mas o amor encontra um jeito de permanecer.
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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