Antes da Flor
Há coisas que começam a nascer muito antes de conseguirmos vê-las.
“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...” (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, “Sol de Primavera”)
Há dias em que a chuva parece esconder a paisagem. O céu fica cinza, os contornos se perdem e, por alguns instantes, parece que nada está acontecendo.
Mas basta olhar um pouco mais de perto.
Nas plantas, pequenos botões anunciam aquilo que ainda não chegou. A vida não espera o sol aparecer para começar a florescer.
Talvez conosco também seja assim. Há mudanças que começam por dentro, silenciosamente, muito antes de ganharem forma. Um desejo que reaparece, uma esperança que se insinua, uma vontade de tentar de novo. Nem sempre percebemos. Às vezes, continuamos olhando para o que falta enquanto alguma coisa nova já começa a nascer.
Por isso que certas primaveras chegam antes do calendário. Elas começam quando alguma coisa dentro de nós volta a acreditar que pode florescer. E talvez até o perdão seja assim: não um gesto repentino, mas uma semente que, depois de muito tempo, encontra espaço para brotar.
Quando setembro chega, os campos não perguntam se estamos prontos para a primavera. Simplesmente florescem. E tomara que a vida também nos ensine que algumas coisas não precisam estar prontas para começar – precisam apenas de um pouco de espaço, tempo e cuidado.
Porque, mesmo quando a chuva embaça os olhos, ainda há beleza acontecendo. E algumas das coisas mais bonitas da vida talvez sejam justamente aquelas que começam a nascer quando ainda não conseguimos enxergá-las por inteiro.
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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