Ainda Dá Tempo

Não importa quanto tempo você tenha ficado. Salve o resto de sua vida.

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Ainda Dá Tempo

“Não importa o que tenha acontecido”. Eu sei...essa frase, assim dita, pode soar quase ofensiva. Como se ignorasse dores, perdas, ausências, injustiças. Como se dissesse que tudo é simples – e não é. Mas talvez ela não fale sobre apagar o passado. Talvez ela fale sobre outra coisa. Sobre o que ainda está vivo. Porque há uma parte de nós que atravessa tudo – mesmo quando ferida, mesmo quando desacreditada, mesmo quando cansada de tentar. Há sempre um resto.

E é curioso como a vida não se organiza apenas a partir do que nos aconteceu, mas principalmente a partir do lugar que damos a isso dentro de nós. Há quem transforme dor em destino. Há quem transforme dor em identidade. E há quem, aos poucos, vá transformando dor em travessia. Nenhum desses caminhos é simples. Nenhum acontece sem custo.

Mas, existe uma pergunta silenciosa que insiste, mesmo quando evitamos escutá-la: o que você vai fazer com o que fizeram de você? Não no sentido da culpa – mas no sentido da autoria. Porque, em algum ponto da vida, deixar de ser apenas efeito se torna condição para continuar vivendo.

E isso não significa negar o que doeu. Nem perdoar antes da hora. Nem seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Significa, talvez, começar a escolher. Escolher não repetir certas violências – nem contra si, nem contra o outro. Escolher não permanecer onde já não há vida possível. Escolher não se reduzir aquilo que faltou.

Salvar o resto da vida não é um gesto grandioso. É um movimento íntimo, quase imperceptível. É quando, mesmo com medo, você não se abandona. É quando, mesmo cansada, você se escuta. É quando, mesmo ferida, você decide não se tratar como foi tratada.

Porque o passado pode ter sido um lugar de pouca escolha. Mas o presente – ainda que limitado – sempre guarda algum espaço de decisão. E talvez seja isso que assuste tanto. Porque salvar o que resta da vida não depende mais só do outro. Não depende mais apenas do que faltou. Depende, em alguma medida, de um encontro consigo. E esse encontro nem sempre é confortável.

Há culpas, há lutos, há versões de nós que precisam ser deixadas para trás. Há ilusões que não se sustentam mais. Há histórias que precisam ser ressignificadas. Mas também há algo que nasce. Uma espécie de dignidade silenciosa. Um cuidado novo. Uma forma mais honesta de existir.

Não importa o que tenha acontecido. Importa o que, apesar disso, ainda pulsa. Importa o que, mesmo machucado, ainda quer viver. Importa o que em você não desistiu – ainda que você tenha, por um tempo, desistido de si. Talvez, não seja possível salvar tudo. Mas sempre é possível salvar alguma coisa. E às vezes, é justamente dessa “alguma coisa” que uma nova vida começa.

 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara

 

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