A Tristeza que Não Grita

Quando o amor fica maior que a ausência

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A Tristeza que Não Grita

Há lutos que nos atravessam como tempestade. E há lutos que chegam como o entardecer.

O meu tem sido assim: silencioso, triste e, paradoxalmente, bonito. Uma tristeza que não me desorganiza, mas me recolhe. Que não grita, mas permanece. Como o pôr do sol que dói porque anuncia o fim do dia, mas encanta porque pinta o céu de cores que só existem naquele instante. 

Talvez por isso essa tristeza não grite: até na sua partida, sem ruído e sem desespero, ele me ensinou que é possível atravessar a dor com serenidade. Porque o luto não é apenas sobre a ausência, é também sobre a dimensão do que ficou.

Dizem que o samba, para ser bom, precisa carregar um pouco de tristeza. Vinícius sabia disso. A dor pura é desespero; a tristeza atravessada pelo amor vira beleza. O luto, quando nasce de um vínculo verdadeiro, não é só perda – é reconhecimento... é gratidão.

Meu pai não está mais aqui em presença. Mas está grande. Imenso. Espalhado. Ele está nos meus gestos cotidianos, na forma como olho para as pessoas, no cuidado que ofereço, nas escolhas que faço quando ninguém está vendo. Está no meu caráter, na ética silenciosa, na maneira de atravessar a vida sem atalhos. Muitas de minhas atitudes são ele: aprendidas, observadas, incorporadas sem que eu percebesse. Meu pai, quando foi tristeza, foi tristeza sentida... discreta, jamais gritada. Meu pai foi alegria, acima e apesar de tudo.

É estranho perceber isso depois da morte. E, ao mesmo tempo, profundamente consolador.

A saudade existe – claro que existe. Mas ela não vem acompanhada de desespero. É uma saudade calma, quase respeitosa. Uma tristeza que não me puxa para o vazio, mas me ancora na história que tivemos. Não dói porque faltou; dói porque foi grande.

O luto, às vezes, é esse lugar onde a dor encontra a gratidão. Onde a ausência convive com a certeza de que houve amor, presença, dignidade e exemplo. Onde a gente entende que algumas pessoas não vão embora: elas se espalham.

Por isso é possível dizer que há beleza no luto. Não porque a morte seja bonita – ela não é. Mas porque o que foi vivido deixa rastros tão fortes que continuam iluminando o caminho. A tristeza, nesse caso, não empobrece a vida; ela aprofunda.

Quando alguém assim parte, não leva tudo consigo. Fica nos outros. Fica nos filhos, nos amigos, na família, nas pessoas que foram tocadas. Fica em cada gesto que continua dizendo, sem palavras. O luto, então, deixa de ser só despedida. Passa a ser também continuidade.

E talvez essa seja uma das formas mais gentis de atravessar a dor: entendendo que algumas presenças são tão bem construídas que nem a morte consegue desfazer. 

COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara  

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