Carta ao Meu Lado Insuportável
Entre a autodefesa e a inconveniência.
Ah, meu caro lado insuportável,
Que seria de mim sem você? Meu advogado de defesa, meu cão de guarda, meu detector de desaforos. Enquanto tento ser aquela pessoa serena e compreensiva, lá vem você, bufando impaciência, revirando os olhos e sussurrando: “vai deixar por isso mesmo? ”
Já lutei contra você, tentei te silenciar, expulsar, ignorar. Em vão. Descobri com o tempo, que mais sábio é te delimitar. Isso exige trabalho, disciplina e vigilância, porque sei também que, se te deixo solto, toma conta de tudo. Mas também aprendi que há algo de útil em você. Me protege, diz verdades necessárias que eu não teria coragem de dizer, afasta aqueles que não tem paciência de me enxergar além da superfície, e principalmente aqueles que são folgados.
Preciso de você. Sim, eu admito. É a parte que não atura desaforo, que não aceita desrespeito, que não engole falta de consideração, que levanta as sobrancelhas e responde à altura quando a empatia desaparece da equação. Sem você, eu seria um ser constantemente pisoteado, o alvo preferido dos aproveitadores.
Claro, nem tudo são flores. Você exagera, admito. Tem o dom de transformar pequenos incômodos em monólogos dramáticos, de fazer tempestade em copo d’agua e, de quebra, arrastar minha paciência junto. É o lado que me faz perder discussões no banho, ensaiando respostas brilhantes que nunca serão ditas. É o que solta um “só observo! ” enquanto ferve por dentro.
Eu poderia te comparar a um cão de guarda. Daqueles barulhentos, que latem frente a ameaça. Nem sempre acerta, às vezes faz escândalo por pouco, mas quando realmente importa, lá está você, pronto para me proteger.
E claro, um brinde aos verdadeiros amigos que te suportam! Que te veem dando seus ataques de sinceridade brutal e, ainda assim, escolhem ficar. Que entendem que a convivência comigo, as vezes exige paciência. Porque se tem uma coisa que sei, meu caro lado insuportável, é que quem me ama de verdade, aprendeu a amar também a sua teimosia, teu sarcasmo e tua incapacidade de aturar certas bobagens.
Então, sigo te educando, te restringindo quando necessário, trabalhando o seu tom, negociando contigo dia após dia. E sigo grata aos que me aceitam por inteiro, sem excluir as partes menos fáceis de amar.mas com uma condição: da próxima vez que quiser ser verdadeira ou soltar uma resposta atravessada, pelo menos me avise antes, para que eu possa ensaiar um pouco melhor.
Com verdade, acima de tudo
Eu
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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