Carta ao Meu Lado Bonzinho
Sobre os pesos que carregamos para não desagradar.
Meu caro,
Faz tempo que te observo. Você, que sempre escolhe as palavras certas para evitar desentendimentos, que engole o incômodo para não pesar o ambiente, que se curva quando sente que sua firmeza pode incomodar. Sei bem o quanto já nos sacrificou para caber, para não perturbar, para ser aceito.
A verdade, meu querido, é que te ensinaram que ser bom significa não desagradar. E você aprendeu direitinho. Tornou-se perito em ceder, em sorrir quando preferia silenciar, em abrir mão para garantir que o outro ficasse mais confortável. Mas eu me pergunto: quantos pesos já levou para casa por medo de soltá-los diante de quem os colocou sobre nossos ombros? Quantos “tudo bem” já disse quando, na verdade, tudo dentro gritava que não estava nada bem?
E o mais cruel é que essa bondade tem um preço. Um preço alto. Ela custa a voz quando você engole palavras que deveriam ser ditas. Custa a paz quando você carrega ressentimentos que deveriam ser devolvidos a quem os causou. Custa a verdade quando você se disfarça de aceitação, mas por dentro sangra em silêncio.
Eu sei, eu sei... existe o medo. Medo de desagradar e ser deixado de lado. Medo de ser visto como egoísta. Medo de ser rejeitado por não corresponder às expectativas. Mas me diga: que tipo de amor é esse que só se sustenta enquanto não ocupamos espaço?
Saiba que a verdadeira bondade não está em se anular. Não é sobre dizer “sim” quando o coração pede um “não”. Não é sobre carregar pesos que não são nossos para sustentar relações frágeis. A verdadeira bondade nos inclui também. E eu quero te lembrar, com todo o carinho do mundo, que não precisamos ser menos para caber na vida de ninguém.
Então, que tal aprendermos um novo jeito de existir? Um jeito onde sua doçura não seja confundida com submissão, onde sua empatia não nos condene a carregar o que não é nosso, onde sua generosidade não custe nossa paz. Seu coração já é bonito o suficiente sem precisar se moldar ao medo de não ser aceito.
Seja bom, eu apoio, mas antes de tudo, seja bom conosco.
Com o afeto que não precisa se sacrificar para receber,
Eu
COMPANHIA NO DIVÃ - Bia Melara
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